Senhora da Amargura
Mãe das Dores, Senhora da Amargura,
Eu vos contemplo o peito lacerado
Pelas mágoas do filho muito amado,
Nas estradas da vida ingrata e dura,
Existe em vosso olhar tanta ternura,
Tanto afeto e amor divinizado,
Que do vosso semblante torturado
Irradia-se a luz formosa e pura;
Luz que ilumina a senda mais trevosa,
Excelsa luz, sublime e esplendorosa
Que clareia e conduz, ampara e guia.
Senhora, vossas lágrimas tão belas
Assemelham-se a fúlgidas estrelas:
Gotas de luz nas trevas de agonia.
Auta de Souza
(do livro Auta de Souza, psicografado por Francisco Candido Xavier)
MÃOS
Harpas de amor tangendo de mansinho
A música do bem ditosa e bela
As mãos guardam a luz que te revela
A mensagem de paz e de carinho.
Não te digas inútil ou sozinho...
Na existência mais triste ou mais singela,
Nas mãos todo um tesouro se encastela,
Derramando-se em bençãos no caminho.
Ara, semeia, tece, afaga e ajuda...
Mãos no trabalho são a prece muda
De nosso coração, vencendo espaços...
E aprendendo com Cristo, ante o futuro,
Tuas mãos, como servas do amor puro,
São estrêlas fulgindo nos teus braços.
(Francisco Cândido Xavier por Auta de Souza)
VEM E AJUDA
Repara, além das rosas do teu horto,
Onde a luz do teu sonho brilha e mora,
Os romeiros que seguem vida a fora,
Padecendo aflição e desconforto.
Infortunados náufragos sem porto.
Tristes, rogando a paz de nova aurora,
Levam consigo a dor que clama e chora
Sob as chagas do peito quase morto...
Não te detenhas!... Vem, socorre e ajuda
A multidão que passa, inquieta e muda,
Implorando-te amor, consolo e abrigo!...
Reparte o pão que te enrique a mesa,
Estendendo o teu horto de beleza,
E o Mestre Amado habitará contigo.
(Francisco Cândido Xavier por Auta de Souza)
| Biografia: Auta de Souza Natural de Macaíba - RN, nasceu em 12 de setembro de 1876 e desencarnou em 07 de fevereiro de 1901, são seus pais Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza. Estudou e aprendeu no Colégio São Vicente de Paula, da Estância, em Pernambuco, dirigido pelas irmãs de caridade, que lhe formaram o coração e o espírito. Poetisa mais ilustre do Rio Grande do Norte, de sua autoria temos apenas o livro "HORTO", delicioso rimário, cuja primeira edição data de 1900, sendo prefaciado pelo príncipe da poesia brasileira Olavo Bilac. Reeditou-se, em Paris, em 1910, com ilustrações artísticas de D. Widhopff. Despediu-se da vida em Natal na manhã de 7 de fevereiro de 1901, à Avenida Rio Branco,15, casa de seu irmão, ao lado de Eloy de Souza, de Henrique Castriciano (seus irmãos) e do major João Cancio. Por ocasião de seu enterro, por entre lágrimas da família natalense, o Senador Pedro Velho, fez descobrir seu ataúde coberto de lírios e rosas e, curvando-se beijou-a na testa silencioso e comovido. No cemitério, em frente ao seu túmulo disseram-lhe o último adeus, seus confrades e admiradores Pedro Avelino, Galdino Lima e Ezequiel Wanderley. |