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     A Estrada de Damasco de

                Coelho Neto

                                  Ana Maria Spränger Luiz

Texto adaptado e baseado em entrevista dada ao Jornal do Brasil por Coelho Neto em 07 de julho de 1923.

Ela era senhora da alta sociedade da cidade do Rio de Janeiro, no começo do século. Chamava-se Júlia.

Seu pai conhecidíssimo homem público.

Enviuvara  seis meses atrás quando dos fatos aqui  narrados, embora ainda muito jovem, dedicava todo o seu tempo, de moça rica e sem muitos afazeres domésticos a cuidar da sua filha adorada, Ester.

Um dia, a menina passou por certa problemática, e veio a desencarnar; embora os recursos financeiros, clínica famosa e os melhores médicos e remédios...

Desse dia em diante, a mãe passou das lágrimas ao desespero, e, caiu numa depressão tamanha, que era somente amenizada com a visita diária ao túmulo da filhinha e, depois ao do marido, vivendo entre os mortos alheia a tudo o que se passasse ao redor.

Toda de luto fechado, portando flores e vasos com plantas a senhora pegava diariamente na porta da sua residência, nas Laranjeiras, um bonde e descia no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Voltava mais confortada para imediatamente cair em depressão horas após... Os avós da criança, com quem ela morava, não sabiam mais o que fazer... Tudo era em vão!

Os avós estavam determinados em transferirem-se para o bairro de Copacabana mas Júlia relutava em sair da residência onde fora feliz...

Certa feita, seu pai, homem experiente e famosíssimo, notou que a filha não chorava mais pelos cantos da bela residência. Até sorria enigmaticamente e, ele passou disfarçadamente, a vigiar-lhe os passos. Algo deveria estar acontecendo...

Nesse acompanhar disfarçado, os familiares passaram a perceber que ela não ia mais tantas vezes ao cemitério durante a semana, não comprava tantas flores, nem chorava tanto... Que estaria ocorrendo? Será que a filha passara da tristeza para uma fase de loucura? Ela sorria...sorria...

Uma serviçal da casa, que ali labutava há vários anos contou ao patrão que todo dia às 18 horas o telefone tocava e a moça conversava, sorria, conversava, bem baixinho, em surdina...

Então, o ilustre homem passou a julgar que algum caça-dotes, sabendo da carência da filha amada e do desencarne da sua netinha, por certo, num desses passeios de bonde a teria conhecido e a estaria seduzindo! Seriam essas chamadas telefônicas certamente feitas pelo que a estaria seduzindo com vãs promessas! Quem seria? Algum conhecido? Num tempo em que pouquíssimas pessoas possuíam tais aparelhos e em que as chamadas eram feitas por intermédio da telefonista, quem saberia o número da residência palaciana onde moravam? Eram tão discretos seus moradores...mas aquelas saídas de bonde...O telefone tilintou, a jovem correu para atendê-lo.

Seu pai muito envergonhado, mas certo de que fazia o melhor em benefício da família, subiu ao segundo andar, pegou a extensão do escritório e , estarrecido ouviu uma voz de criança a conversar com a mãezinha enlutada:

"- Alô mamãe, são seis horas da noite; sou eu de novo, sua filha Ester, conforme lhe prometi noutras chamadas telefônicas, aqui estou eu! Mãezinha, a morte não existe! A vida continua! Não morri, mamãe! Moro somente noutro lugar. Você está bem mais forte, estou gostando, continue sem chorar, sim? Não vá ao cemitério, não estou lá, está bem?"

"- Está bem minha amada filhinha, meu anjo, meu amor, prometo ser bem forte, não chorar mais."

A voz era realmente de Ester, contava fatos que somente eles sabiam mas só podia ser uma brincadeira de alguém mal intencionado.

O famoso político e escritor, pai da senhora e avô da desencarnada passou a ter a convicção de que alguém, desejando molestar sua família fazia aquela brincadeira de mau-gosto. Que, por enquanto, estava dando certo, pois percebia a filha cada vez mais otimista... mas quando ela viesse a descobrir a farsa, por certo ficaria em piores condições!!!

Com seu prestígio, o ilustre conterrâneo, conseguiu grampear todas as chamadas destinadas à sua residência; funcionários competentes da companhia telefônica, ficaram nos postes, em frente da casa, 24 horas, por vários dias, a fim de se descobrir quem seria o autor daquela maldade.

Por uma semana , sem faltar um dia sequer, o telefone tilintou às 18 horas, e, Júlia conversou com Ester e foi se fortalecendo cada vez mais com a certeza de que a filhinha estava ótima, onde se encontrava!

Após uma semana, o laudo da companhia foi mandado em envelope lacrado para o morador, para o assinante e dizia assim: "O telefone jamais tocou do poste, dos fios, para sua residência; jamais a telefonista foi acionada para qualquer chamada telefônica às 18 horas, a fim de completar qualquer chamada.."

Coelho Neto perguntou então à querida filha:

"- Como você faz a chamada?"

"- Ora, papai quando eu lhe quero falar a chamo com o coração, com amor e ouço-lhe a voz!"

Nosso ilustre amigo, convocou familiares, conhecidos e admiradores, e, no amplo e conceituado clube próximo de sua residência, o Fluminense Footebol Clube, situado na Rua Álvaro Chaves, em Laranjeiras, contou a todos os que ali estavam essa belíssima passagem que atesta a imortalidade da alma, a sobrevivência do espírito após a morte: o telefone só tocava dentro de sua casa, por certo com o concurso de algum médium nas redondezas !

Por isso, caro amigo se você também se encontra numa situação parecida com a da mãezinha de Ester.

Observe!

A vida continua.

A morte não rompe os laços de amor e fraternidade.

Sorria otimistamente para a vida !

 

 

by damita
Aviso: A Microsoft não se responsabiliza pelo conteúdo apresentado neste grupo. Clique aqui para obter mais informações.
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