Ignotus
Tratava-se de uma sessão de clarividência e psicometria em respeitável Sociedade Espiritualista parisiense.
Sobre a mesa, diante da médium, respeitável senhora em cujo rosto sereno havia uma moldura de nobreza moral, encontravam-se fotografias, objeto de uso pessoal e pequenas bijuterias com o fim de facultar-lhe a percepção paranormal.
Havia uma expectativa compreensível, na sala repleta, onde minutos antes, outro médium, de procedência estrangeira proferira palpitante conferência espírita que sensibilizara o auditório, ainda comovido, que o fora ouvir.
A médium, igualmente tocada, referiu-se à favorável psicosfera que pairava no ambiente, como decorrência das imagens mentais produzidas pelo orador que, reiteradas vezes, exaltara a vida e a obra de Allan Kardec, o missionário de Jesus encarregado de Codificar o Espiritismo, trazendo de volta o Cristianismo sem jaça, liberado dos artifícios com que a ortodoxia religiosa o obumbrara através dos séculos.
Após agradecer a contribuição espiritual e doutrinária que o orador trouxera à assistência, deu início à sua tarefa.
Visivelmente inspirada, em transe parcial, no qual transparecia a interferência dos Espíritos sérios, a intermediária identificou e transmitiu mensagem de desencarnados aos seus familiares sob emoção crescente do público.
Passando à psicometria, tomou de vários pequenos objetos, descreveu os seus possuidores, referiu-se a problemas de saúde de alguns, deu conselhos morais.
Quando tocou um chaveiro, corou, subitamente, dilataram-se-lhe as pupilas e ela, com alguma veemência, invectivou o seu dono para que não levasse adiante o plano que ora arquitetava e dera início à sua execução. Convidou-o a mudança de comportamento em relação a pessoa, sua vítima em potencial, orientou-o
Irritado, o consulente reagiu, fazendo-se agressivo.
A dama, porém, segura do dever que lhe dizia respeito, não se desequilibrou.
Na primeira oportunidade, no entanto , esclareceu:
Dedico-me à mediunidade há muitos anos, por amor ao meu semelhante, sem dela fazer negócio de qualquer natureza. Trabalhei, na minha profissão anterior, por vários anos, até aposentar-me, de modo a não necessitar de vender as minhas faculdades psíquicas. Por isso sempre adotei o sistema de dizer o que é justo e não só o que agrada. Não brinco neste ministério que considero grave e digno, investindo os meus melhores recursos, minhas reservas de energia e de abnegação.
Fez uma pausa, concatenando idéias e concluiu, igualmente inspirada
O orador referiu-se, que Allan Kardec nos convidou à razão, ao livre exame, à procura honesta, elucidando que seria melhor desprezar nove entre dez verdades, a aceitar uma só mentira". Porque não cobro dinheiro, com a obrigação de elogiar os pagantes, não temo orientá-los com os recursos da verdade, que logro constatar.
O público, anuindo, aplaudiu-a, enquanto ela prosseguiu, tranqüila, no seu mister até a hora do encerramento.
Em qualquer lugar a verdade tem o seu lugar.
A verdade liberta e nunca se submete.
Para ser verdadeira, a mediunidade deve ser exercida com gratuidade, coerência e dignidade, sem o que se corrompe e se envilece.
A fim de alcançar esse desiderato, o conhecimento da Doutrina Espírita se Ihe faz indispensável.
Divaldo Franco em 27/10/1983 em Paris, França.