Ana Maria Spranger Luiz
Na década de 70, o médium e orador espírita Divaldo Franco, foi à Portugal convidado pelo saudoso casal Julio - Estela Trindade. Julio Trindade ofereceria as condições financeiras para o evento. Divaldo faria a oratória, a divulgação da Doutrina Espírita. Julio anelava por levar a palavra dos espíritos à sua longínqua aldeia.Assim foi feito com excelentes resultados. Houvera sido uma aventura! O país estava em ditadura e, o Espiritismo, propositadamente, era confundido com o comunismo, passível de prisão para os profitentes, os adeptos ou até os simpatizantes. Havia a famosa PIDE -Polícia Internacional de Defesa do Estado. Na sua maioria as conferências eram proferidas no breu total. Sem nenhuma lâmpada acessa.
Para aproveitar a viagem Divaldo resolveu ir até a Espanha. Seria uma outra aventura! O país também estava em ditadura e, o Espiritismo também era controlado.
No meio da rua, em plena Espanha, Divaldo confabula com um espírito que lhe diz ter a chave para o empreendimento divulgatório. Conta que foi professor numa Universidade. Que uma sua aluna o venera com devoção e possui uma foto sua , no seu quarto, onde regularmente ali coloca uma flor. Diz-lhe que ela exerce a profissão de médica. Dá-lhe o número do telefone dela! Divaldo resolve telefonar e daí marcam uma entrevista na residência da senhora. A médica após relutar muito, aceita recebê-lo depois que ouve o nome do professor tão querido.
Na residência da senhora, Divaldo explica que como espírita (imagine-se!), resolvera, acolitado pelos Bons Espíritos, falar naquela cidade, e que seu antigo mestre corroborara para o intento.Vindo em espírito lhe dizer que sua aluna também era simpatizante da causa, e que seria, naquela circunstância, a única a ajudá-lo.
A moça aparvalhada pensa ser Divaldo alguém da polícia, e afirma categórica não conhecer nada de Espiritismo e que não tinha relações de amizade com quaisquer espíritas. Divaldo insiste, e para materializar suas palavras fala da flor que a médica costumava colocar ao lado da foto em sua alcova. Ela, emocionada, leva-o até lá e mostra o rosto do mestre, e a jarrinha com as mimosas flores. Começa a freneticamente telefonar para aqui, ali e alhures marcando a palestra para a casa de uma costureira pontualmente às 20 horas.
Uma costureira? É que sendo um local onde várias pessoas têm de ir para ajustarem suas roupas não ficaria nada estranho tantas pessoas entrando e saindo. Ao demais haveria o subterfúgio de desde às 15 horas os confrades chegarem devagarinho, como "quem não quisesse nada"... E assim foi feito. Vinte horas. Divaldo falava, falava, no escuro. Eles não acenderam as luzes por precaução. Um deles, num dado instante, num rasgo de coragem disse:
"-Ora, estamos em nossa terra. Acendamos as luzes!"
Quando as luzes se acendem para surpresa, Divaldo estava falando virado para a parede tal era o breu anterior!Virou-se, e entusiasmado continuou à falar do Cristo e de Kardec. Súbito, abre-se a porta com ligeira rapidez, até um certo barulho.Todos se voltam. Entra um casal. O homem segurando enorme cão, e os três "sentam-se" na primeira fila. Isto é, o cachorro se espoja aos pés de Divaldo que não se pode quase mexer daí em diante. O cão bem deitado, quieto, encantado, olha, olha...
Ao final da conversa o homem eufórico diz:
"- Gostei do senhor, vejo que é um homem de bem! Sei disso por causa do meu cachorro. Ah! Se o amigo não fosse quem dizia ser... meu cão não o perdoaria..."E daí em diante por causa disso tudo a divulgação da nossa tão querida Doutrina passou a contar com a palavra abalizada de Divaldo Franco nas terras espanholas.
Que cachorro, por certo bem mais esclarecido que muitos humanos!