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Daniel Dunglas Home Um Precursor Esquecido

por Hermínio C. Miranda em 01/09/2000

fonte: Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos - FEB 

A observação desapaixonada do imenso painel da História revela a nítida interferência dos poderes superiores nos impulsos criadores e renovadores da Humanidade. Em outras palavras mais simples: A História é um jogo inteligente de forças espirituais, com motivações e destinação espirituais. Se fosse preciso demonstrar a tese, bastaria tomar o exemplo do movimento espiritual desencadeado em 1848, em Hydesville, nos Estados Unidos.

E mais ainda: vemos que as genuínas correntes históricas trazem em si mesmas um ímpeto irresistível, que mesmo as imperfeições, fraquezas e deserções humanas não conseguem deter. As meninas da família Fox, certamente incumbidas pelos seus mentores espirituais do trabalho inicial, não resistiram à pressão insuportável das forças adversas e acabaram passando a si próprias atestado de fraude, para, depois, desmentirem o desmentido. Isso levou Harry Price (in “Fifty Years of  Psychical Research”) a oferecer ao leitor duas alternativas: Margaret Fox foi médium fraudulenta ou uma grande mentirosa. As alternativas de Price – como, aliás, inúmeros dos seus comentários – são impiedosas e extremadas. É inegável que elas produziram fenômenos autênticos que, na época, despertaram paixões violentas naqueles que não suportam ver seus interesses e suas crenças sacudidos pela base. Posteriormente, comercializaram suas faculdades – caminho mais fácil e mais direto para a fraude consciente. É possível que, para se verem livres da pressão social, tenham resolvido “confessar” que fraudavam, do que mais tarde se arrependeram. Não é justo pregar rótulos cruéis em seres humanos dos quais não conhecemos direito as motivações, o ambiente em que viveram, as crises que experimentaram, as coações que sofreram e as aflições por que passaram.

O que se pretende evidenciar aqui é que, a despeito da fragilidade humana, a marcha da espiritualização da Humanidade segue em frente e, como nos é permitido saber às vezes, aqueles que perseguem e ridicularizam médiuns costumam voltar mais tarde, em outras vidas, como médiuns...

Uma vez disparados os dispositivos da “revolução espiritual”, em 1848, vemos que uma verdadeira constelação de médiuns, das mais variadas faculdades, começou a despontar pelo mundo a fora. No espaço de algumas décadas, de meados do século XIX até princípio do século XX, viveram centenas de bons médiuns, muitos dos quais foram experimentados a sério pelos grandes cientistas da época. Mencionemos apenas alguns, dos mais famosos: as três jovens Fox, Daniel Dunglas Home, Eusapia Palladino, Florence Cook, Eva C.(Carrière), Madame de Esperance (Elizabeth Hope), Willi e Rudy Schneider (conterrâneos de Adolf Hitler), Franeck Kluski, Leonore Piper, Julian Ochorowicz, Henry Slade e outros.

Claro que, na posição de pioneiros de um movimento criado para renovar o pensamento humano, não foi fácil a tarefa desses precursores. Precisamos conceder a cada um deles uma larga margem de compreensão e tolerância pelas falhas humanas que porventura tenham demonstrado, mesmo porque não tinham ainda um corpo doutrinário consolidado em que se apoiassem para compreender suas próprias faculdades e orientar o exercício de suas tarefas. Além do mais, como portadores de recursos insólitos, mal compreendidos e pouco estudados, viam-se, de repente, sob o foco de atenções e solicitações, como figuras de um outro mundo que todos queriam ver, apalpar e examinar. Era difícil resistir às tentações, às ofertas de dinheiro e ao cortejo dos grandes e poderosos da época, tanto quanto aos ódios e à hostilidade de muitos.

Ninguém enfrentou maiores dificuldades nesse campo do que Daniel Dunglas Home, cuja existência é uma legenda que ainda hoje parece muito enigmática. Há uma verdadeira torrente de livros e referências sobre esse homem curioso, que tinha livre acesso às brilhantes cortes européias do século passado.

Home nasceu numa vila chamada Currie, perto de Edinburgh, na Escócia, a 20 de março de 1833. Sabe-se que sua mãe também possuía faculdades psíquicas. Seu pai era ligado à nobre família dos Home, de Dunglas. O médium dizia que seu pai era filho ilegítimo do décimo earl de Home.

Jean Burton, na excelente biografia de Home – “Heyday of a Wizard”, publicada por George G. Harrap em 1948 -, comenta a dificuldade que enfrentaram os contemporâneos do médium para entendê-lo e classificá-lo. Não era um artista de palco nem um religioso. Gostava de ser recebido como igual e que jamais alguém se lembrasse de oferecer-lhe dinheiro pelas suas sessões.

A Princesa de Metternich o descreve assim: “Estatura razoável, magro, corpo bem construído; vestido de boas roupas, com gravata branca parecia um gentleman da mais elevada posição. Seu rosto era atraente na sua expressão de suave melancolia. Era pálido, de olhos azuis de porcelana – olhos penetrantes, um tanto sonolentos -, cabelos avermelhados, mas não longos demais; não gaforinha de pianista ou de violinista; em suma, era de aparência agradável, nada de extraordinário, a não ser, talvez, a palidez da pele, que parecia natural, no seu contraste com o cabelo vermelho e a barba.”

Por motivos que não ficaram bem claros, com um ano de idade o menino foi viver com uma tia casada, sem filhos, a Sra. Mary McNeal Cook, com quem passou uma infância normal, num lugar chamado Portobello. Quando Daniel tinha nove anos de idade, a família Cook mudou-se para os Estados Unidos, onde já se encontravam os pais de Home, desde 1840, com os seus sete filhos. Tia Mary foi morar em Greenville, no estado de Connecticut. Como os pais viviam por perto, Daniel visitava-os de vez em quando.

Sua saúde era precária, tossia muito e tinha desmaios. Mais tarde transmitiria sua tuberculose à primeira esposa, Sacha, sobrevivendo-lhe, no entanto, por muitos anos. Já então começavam sua experiências psíquicas; uma das primeiras foi a visão do Espírito do seu amigo Edwin, recentemente falecido. Informam também os biógrafos que o menino foi orador precoce, muito fluente e com entonações de pregador sacro, gostando de recitar versos sentimentais e religiosos e pequenos discursos sobre o pecado, a prece, a morte.

A tranqüila vida na casa dos Cook, no entanto, começou a ser perturbada pelos fenômenos de efeito físico que assustavam toda a gente, a começar pelo jovem Home. Eram batidas por toda parte e movimento de móveis e utensílios pela casa. Certa vez, uma cadeira perseguiu-o no seu próprio quarto. Daniel, apavorado, não sabia o que fazer, pois a peça ficara entre ele e a porta de saída. A um passo, a cadeira parou, ele saltou rápido por cima dela, apanhou o chapéu e saiu para a rua, para botar as idéias no lugar, tentando compreender o fenômeno. Para encurtar a história: tia Mary, de rígida formação protestante, deve ter achado que o sobrinho tinha parte com o demônio e que era melhor ele deixar a casa, o que fez imediatamente. É curioso que não tenha procurado a casa dos pais e sim a de uns amigos. Foi assim que iniciou sua vida de peregrinação de casa em casa, ali mesmo por New England, prelúdio da futura peregrinação de palácio em palácio na Europa.

Suas maneiras eram gentis, “era efusivo nas expressões de gratidão – diz Jean Burton - , rápido em tomar a cor local, eminentemente adaptável, sempre pronto para ajudar as crianças nos seus deveres, brincar com o gato ou admirar o desenho de uma nova manta. A natureza preparou-o, em suma, para ser o hóspede perfeito”.

No verão de 1851, o Dr. George Busch descobriu Home e quis fazer dele um pregador da New Church(3). Busch, homem de grande cultura, era professor de Línguas Orientais na Universidade de Nova York. Home achou boa a idéia e aceitou o oferecimento, mas em 48 horas voltou ao professor para desfazer o trato, porque o Espírito de sua mãe o aconselhara nesse sentido. “Meu filho, dissera ela, você não deve aceitar essa bondosa oferta, porque sua missão é mais ampla do que pregar do púlpito”.

E assim foi feito.

Já então o jovem Home começava a incomodar o clero das religiões estabelecidas, muito embora durante a sua vida buscasse viver em bons termos com elas. Foi sucessivamente metodista, congregacionalista e católico, terminando na Igreja Ortodoxa Grega. É que suas sessões mediúnicas passaram a despertar enorme interesse do público e da imprensa. Sacerdotes e ministros certamente não se sentiam bem diante daquele rapazinho que fascinava suas ovelhas com fenômenos insólitos. Home, com modéstia e sinceridade quase inocente, devolvia “as mais amargas vituperações”, dizendo mansamente: “Ao passo que as Igrejas estão perdendo seus prosélitos”, seus fenômenos estavam “trazendo mais conversos às grandes verdades da imortalidade do que todas as seitas cristãs, tornando impossível as idéias materialistas e cépticas, infelizmente tão preponderantes nas classes educadas”.

Esse engano de que a Igreja deveria receber o Espiritismo de braços abertos foi comum entre os médiuns da primeira hora e até mesmo entre alguns espíritas. O raciocínio é perfeitamente lógico e razoável: se um dos principais pontos de sustentação do Cristianismo é a sobrevivência da alma, era de esperar-se que a Igreja acolhesse com sofreguidão os métodos experimentais que demonstravam tal realidade. Mas, nem sempre os homens agem dentro da lógica, especialmente quando estão em jogo suas posições, seus interesses, suas crenças, seus temores e suas paixões.

Foi nessa época que Home se tornou amigo de uma das figuras lendárias do Espiritismo nascente, o Juiz John Edmonds, da Corte Suprema de Nova York.

Em 8 de agosto de 1852, em casa de Ward Cheney, de conhecida família de industriais da seda, Home levitou pela primeira vez. Repetiria esse fenômeno inúmeras vezes, ao longo de sua carreira, sob as condições mais estranhas e sob os olhos atônitos de testemunhas do mais alto gabarito.

Gostava que a sessões se realizassem com pouca gente – seu número ideal eram nove pessoas, inclusive ele, Home. Os Espíritos insistiam em que não houvesse cães no aposento das sessões, que ninguém fumasse e, por alguma razão obscura, não gostavam que Home se sentasse em almofadas de seda.

Os fenômenos eram muitos e variados e quase sempre em plena claridade. Os móveis levitavam, dançavam e batiam ritmadamente. Sinos e campainhas sobre os móveis eram sacudidos; mãos materializadas moviam objetos menores e flores, ou tocavam acordeão.

Espíritos se materializavam de corpo inteiro, traziam “aportes”. De uma vez trouxeram uma plantinha que foi colocada num vaso de terra e “pegou”. Fenômeno curiosíssimo era o alongamento do corpo de Home, repetido sob condições de controle, no qual o médium crescia à vista de todos, seis ou oito polegadas, ultrapassando o tamanho da roupa. Mais para o fim de sua carreira extraordinária desenvolveu a faculdade da incombustibilidade: apanhava brasas vivas com as mãos, sem queimar-se. De uma vez, mergulhou todo o rosto num braseiro, sem que sofresse absolutamente nada. Além disso, transmitia mensagens escritas e faladas – hoje chamadas psicográficas e psicofônicas – de Espíritos relacionados com os presentes.

Home desencarnou a 21 de junho, aos 53 anos de idade, assistido por um sacerdote da Igreja Ortodoxa Grega e foi enterrado no cemitério russo de Saint-Germain-en-Laye, junto dos restos físicos de sua linda filhinha. Julie Home regressou à Rússia, quatro anos depois, e levou consigo Gricha, filho da primeira esposa com seu marido.                  

                             ouça

                             

 

 

Art By Lú

 

 

 

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