| Pio IX concedeu-lhe audiência pessoal. Fez-lhe muitas perguntas “penetrantes, mas bondosamente formuladas”. Acabou despedindo o novo converso com sua bênção. Disseram nessa ocasião que ele havia prometido ao Papa abandonar o exercício de suas faculdades, o que ele negou enfaticamente depois: “Eu não poderia fazer tal promessa, e nem ele a exigiu de mim...” . Nada mais se falou da sua entrada para o convento e de Roma ele se dirigiu, com a família Branicka – que o tinha tomado aos seus cuidados -, a Paris, para estudar francês, segundo ele mesmo declarou. Muito gentilmente, o Papa recomendou-lhe seu próprio confessor, o erudito jesuíta, Padre Xavier de Ravignan, pregador da capela das Tulherias. Essa temporada de Home em Paris foi um extravagante período na vida do médium. Padre Ravignan desempenharia junto dele um papel significativo. Mais uma vez, o caminho dos Browning se cruzava com o de Home. O casal de poetas estava em Paris e Elizabeth imediatamente escreveu a Henrietta para anunciar, algo aflita, a presença do médium, preocupada em que ele e Robert pudessem encontrar-se e reacender antigos rancores, pois, segundo suas próprias expressões, Home era “ainda um osso na garganta do leão”, mas Robert prometeu a ela comportar-se bem e limitar-se a ignorar o médium se, por acaso, cruzasse com ele na rua, o que já era muito. Por via das dúvidas, Elizabeth pede na carta que, na resposta ou em futuras cartas, Henrietta jamais mencionasse o nome de Home, certamente para que Robert não soubesse que elas ainda se ocupavam de tal indivíduo. O momento era particularmente difícil para Home. Abandonado subitamente pelos Branicka – que se cansaram dele – ficou em Paris sem dinheiro e sem muitos amigos. Corria mesmo a notícia – segundo apurou Elizabeth Browning – de que o médium estava muito mal de saúde ou até mesmo nas últimas, por causa da fraqueza dos seus pulmões. Padre Ravignan revelou-se um bom e paciente companheiro, certamente pelo interesse em conquistar aquela alma para a sua fé e sua Igreja, mas inegavelmente também porque era homem de excelente conteúdo humano e tolerante com o seu curioso catecúmeno. Além de tudo, Home fora também abandonado pelos seus amigos espirituais que, descontentes com algumas práticas, retiraram-se, anunciando que somente retornariam às suas tarefas junto ao médium depois de passado um ano inteiro. Toda a Paris especulava sobre o estranho fenômeno da suspensão da mediunidade e sobre quando e como poderia ela ser restaurada, como se Home fosse um famoso cantor de ópera, temporariamente afastado das luzes da ribalta. A sociedade sofisticada do Segundo Império achava que se tratava simplesmente do que hoje se chamaria um “golpe de publicidade”. Era um “vedetismo” de Home, nada mais. No entanto, os Espíritos cumpriram a palavra; deixaram-no um ano sem atividades mediúnicas. Completou-se o prazo a 10 de fevereiro de 1857. No dia 11, pela manhã, Home foi procurado pelo Marquês de Belmont, enviado pessoal do Imperador Napoleão III. Teriam os poderes do Monsieur Home retornado? Tinham. Precisamente ao soar meia-noite, no dia 10, um Espírito veio saudá-lo, levantar o seu moral e dizer que tudo estava bem. Logo em seguida, Padre Ravignan também apareceu ansioso para saber das novas. Não precisou nem falar: foi recebido com batidas espirituais por toda parte. O sacerdote explicou a Home que aquilo tinha de parar, senão ele não poderia conceder-lhe a absolvição. Home argumentou que os Espíritos estavam satisfeitos por encontrá-lo em tamanho estado de pureza, o que certamente facilitava os contatos. Mas o padre manteve-se firme, a despeito de Home ter acrescentado, como sempre o fazia, que as manifestações não estavam sob o controle da sua vontade. Ravignan, que não queria abandonar a alma do seu pupilo ao “demônio”, insistiu em que uma vez que Home não podia evitar as “alucinações” pelo menos poderia desencorajá-las, pois quanto a ele, padre, somente via quando queria ver e somente ouvia quando queria ouvir. Depois desse conselho, preparou-se para partir, e, ao levantar a mão para dar a bênção a Home, o barulho dos “raps” recomeçou por toda parte. Era o fim. Padre Ravignan se retirou e, a despeito dos seus entreveros com a Igreja, o médium manteve agradável lembrança do bondoso jesuíta. Com a volta dos Espíritos, voltaram também os amigos e Home foi apanhado novamente pela roda viva dos compromissos e dos convites para as reuniões elegantes. Já na sexta-feira, 13, “estreou” perante Napoleão III, de maneira dramática. Quando se abriram para ele as portas do Salão Apolo, nas Tulherias, Home deu com uma multidão de nobres, tão grande que o ambiente sufocava. Chegou a recuar. A Imperatriz Eugenia tinha convidado toda a sua “entourage”. Recuperado do impacto, Home explicou, com muitas desculpas e habilidade, que sessão mediúnica não era exibição teatral; que era melhor limitar o número de pessoas presentes a oito ou nove apenas e que mesmo assim ele não poderia garantir nada de positivo, dado que tudo dependia dos Espíritos. Deve ter sido uma “senhora” cena. A Imperatriz, muito ofendida, e sem dizer palavra, retirou-se e Home também se preparou para sair, extremamente confuso, quando o Imperador, subitamente, ordenou que desocupassem o salão. Formou-se um pequeno círculo de privilegiados e a sessão desenrolou-se maravilhosamente, com fenômenos abundantes e inequívocos. Napoleão, “com seus olhos de peixe” – diz Jean Burton -, observava pensativo. Ele passava por ser um razoável mágico amador e certamente apreciava com olho crítico a performance do seu “colega”. A questão é que os “raps” – ou seja, as batidas – respondiam a perguntas que ele fazia mentalmente. Tão entusiasmado ficou que achou por bem interromper os trabalhos, declarando que a Imperatriz tinha de ver aquilo. Mandou chamá-la e em pouco entrou a grande dama com toda a imponência do seu porte e de sua posição. Não é preciso acrescentar que Home conquistou toda a corte francesa. – exceto um ou outro, como, por exemplo, o Conde Walewski, filho de Napoleão I e de Maria Walewska, a bela polonesa. O Conde tudo faria para desmoralizar Home e faze-lo cair em desgraça na corte, o que, aliás, não conseguiu. O médium passou a ter acesso praticamente livre ao palácio, chegando até mesmo a viver ali algum tempo, enquanto assim o desejou. Foi aos Estados Unidos buscar sua irmã Christine, que, como protegida da Imperatriz, matriculou-se no próprio colégio em que Eugenia havia estudado vinte anos antes. Jean Burton chama a atenção para a notável posição dessa moça, colocada num colégio católico grã-fino, sob o bafejo do trono, de um lado, e ligada, de outro, a um irmão que as doces freiras consideravam um tremendo “feiticeiro”. Ao cabo de alguns anos, Christine voltou para os Estados Unidos, onde se casou. Home tem parentes nos Estados Unidos até hoje. É uma pena que não seja possível, nas escassas dimensões de um artigo, reproduzir tantos pormenores interessantes dessa vida fascinante. Temos que nos limitar aos episódios mais importantes. Em 1858, Home foi à Holanda, onde realizou sessões para a Rainha Sofia, em Haia. Ganhou um belo anel de uso pessoal da soberana. Em Bruxelas, apanhou um severo resfriado e novamente suas faculdades falharam. De volta a Paris, o médico aconselhou uma permanência na Itália. Home partiu para Roma, onde se tornou amigo de um jovem nobre cossaco, o Conde Kuchelff-Besbordka. Da amizade pelo Conde surgiu o amor por Alexandrina, sua cunhada, pouco mais que uma menina, pois contava apenas 17 anos. Sacha – como era conhecida na intimidade – era bela, viva, encantadora. Filha do General e Conde de Kroll e nada menos que afilhada do próprio Tzar. Home, convidado para jantar, sentou-se à direita da dona da casa e, ao ser apresentado à encantadora Sacha, teve a estranha impressão de que ela seria sua esposa. A menina disse-lhe, rindo, que ele se casaria dentro de um ano, porque, segundo uma superstição folclórica russa, era infalível o casamento quando um homem se sentava entre duas irmãs que acabasse de conhecer. As impressões de ambos se realizaram. Depois de sessões verdadeiramente notáveis para o Tzar e sua corte – a convite do Imperador, naturalmente -, Home partiu para a Escócia, onde foi apanhar documentos pessoais, e a 1o de agosto de 1858 casou-se com Sacha. No peito de muitos convidados luziam condecorações imponentes. O Tzar foi representado por dois figurões do Império, o Conde Bobrinski e o Conde Aléxis Tolstoi, irmão do genial romancista (Leon). Sacha foi uma boa e dedicada esposa e deu a Home um filho, Gregoire, apelidado Gricha. Home transmitiu a ela a tuberculose, da qual morreria, lúcida e conformada, em 3 de julho de 1862, após uma doce convivência de menos de 4 anos, seguida de uma disputa judicial demorada por causa da herança da jovem esposa. Gricha nasceu a 8 de maio de 1859 e, com a morte da mãe e as andanças do pai, acabou gravitando para o ramo russo da família. Os Home dos Estados Unidos souberam mais tarde que ele havia entrado para o exército russo. Pelo final de dezembro de 1863 achava-se Home novamente em Roma. A pressão do Vaticano começou a tornar-se insuportável. Home pretendia ficar na cidade eterna para estudar escultura. Um livro de William Howitt, sua monumental “History of the Supernatural”, havia, de certa forma, contribuído, involuntariamente, para açular a hostilidade de católicos e protestantes contra os médiuns em geral e contra Home em particular, o médium mais eminente e celebrado do seu tempo. “As luzes espirituais – dizia Howitt -, o tremor das casas, a transposição de portas fechadas, ventanias poderosas, levitação, escrita automática, comunicações em línguas estrangeiras, tudo isso ocorre todos os dias, tanto em Londres como nos Atos dos Apóstolos”. Assim, a 2 de janeiro de 1864, Home recebeu intimação para comparecer à policia. Dia 3, pela manhã, lá foi ele, em companhia de um amigo chamado Gauthier, cônsul da Grécia. Preservou-se o diálogo do médium com a policia, um documento do próprio punho de Home, que vale a pena reproduzir, conservando o seu estilo telegráfico:“Janeiro 2, recebida carta solicitando minha presença na polícia, no dia 3, entre as 10 e uma hora. Em 3 de janeiro fui e me levaram à sala do advogado Pasqualoni. Eu estava acompanhado de meu amigo Senhor Gauthier, cônsul da Grécia em Roma. As perguntas foram as seguintes: Nome do meu pai e de minha mãe? Publicou algum livro? Sim. Sua profissão? Estudante de arte. Sua residência? Via del Tritoni, 65. Quando você chegou? Há seis semanas. Quantas vezes você esteve em Roma? Duas. Quanto tempo ficou de cada vez? Dois meses da primeira e três meses da última vez. Quanto tempo pretende ficar desta vez? Até abril. Você tem residência permanente na França? Não. Quantos livros escreveu? Um. Quantos exemplares vendeu? Como não sou o próprio editor, seria impossível dizê-lo. Depois que você se tornou católico exerceu seus poderes mediúnicos? Nem antes, nem depois eu exerci meus poderes mediúnicos, de vez que não é poder que dependa da minha vontade. Não poderia usá-lo. Como é que você faz isso? Acho que a resposta que acabo de dar é suficiente para esclarecer. Você considera seu poder um dom da Natureza? Não; considero um dom de Deus! Que é um transe? Um estudo de fisiologia explicaria melhor do que eu. Você vê os Espíritos quando dormindo ou acordado? De ambas as maneiras. Por que os Espíritos procuram você? Para me consolarem e para convencer aqueles que não acreditam na sobrevivência da alma! Que religião eles pregam? Isso depende. Que é que você faz para eles se manifestarem? Eu estava para responder que eu nada fazia quando na mesa em que ele escrevia soaram batidas claras e distintas. Ele então disse: Mas a mesa não se mexe. Exatamente enquanto ele dizia isso, a mesa moveu-se. Qual é a idade de seu filho? Quatro anos e meio. Onde está ele? Em Malvern. Com quem? Dr. Gully. Dr. Gully é católico? Não. Quando você viu seu filho pela última vez? Em abril. Então, ele disse, sem nenhuma justificativa, que eu deveria deixar Roma dentro de três dias. Está de acordo? Não, decididamente não, ainda mais porque nada fiz para infringir as leis deste ou de qualquer outro país. Falarei com o cônsul inglês e seguirei seu conselho.” Desencarnou a 21 de junho aos 53 anos. Havia casado com a jovem russa, Julie em 1871. Daniel Dunglas Home, que a Enciclopédia Britânica considerou “um enigma não solucionado”, jamais foi apanhado fraudando. Desempenhou sua missão com dignidade e autenticidade, num ambiente fútil e que facilmente poderia fascinar e corromper um jovem de modestas origens sociais. Creio poder afirmar que seus amigos espirituais ficaram satisfeitos com os seus trabalhos. Sua mediunidade tinha mesmo que ser de forma espetacular, de efeitos físicos, para que pudesse sacudir a incredulidade de uns, a má vontade de muitos, a hostilidade de tantos. Viram-na todos aqueles que tiveram olhos para ver. Sem dúvida, Howitt estava certo: Home ajudou a lançar os alicerces do edifício que só agora começamos a vislumbrar em todo o seu esplendor e em toda a grandeza do seu futuro. Espírito profundamente afetuoso e sereno merece as vibrações mais puras do nosso afeto. |